Cazuza vs Psicóloga – o absurdo e-mail

Recebemos um belo comentário de Giovana Vincenzi sobre o artigo “Azar o seu! Cazuza vs Psicóloga = MUNDO vs Psicóloga Ignorante”.  Ele, por si só, é completo. Confira abaixo.

Esq:Renato Russo. Dir: Cazuza

 

Minha resposta para a “psicóloga” que escreveu o absurdo e-mail “Cazuza, um idiota morto”

Prezada Dra. Karla Christine

Já recebi muitas vezes seu e-mail com severas críticas a Cazuza. Com todo o respeito a suas opiniões, gostaria de expor algumas questões levantadas pela senhora sob um ponto de vista diferente.

“Concordo que suas letras são muito tocantes, mas reverenciar um marginal como ele, é, no mínimo, inadmissível.
Marginal, sim, pois Cazuza foi uma pessoa que viveu à margem da sociedade, pelo menos uma sociedade que tentamos construir (ao menos eu) com conceitos de certo e errado”

Talvez seja um exagero dizer que Cazuza viveu à margem da sociedade. Quem é alheio a algo não conhece seus conceitos e fraquezas – criticadas por Cazuza com muita propriedade em letras como “Brasil”, “Um trem pras estrelas”, dentre outras. A sociedade criticada por Cazuza é a que esbarra em conceitos retrógrados de moral e bons costumes. É a mesma sociedade que paga salários inferiores a mulheres e negros, a mesma sociedade que discrimina o homossexual, que vota sem consciência, dentre outros defeitos.

“No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que nunca precisou trabalhar para conseguir nada, já tinha tudo nas mãos. A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras. O pai preferiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr solta.
São esses pais que devemos ter como exemplo?”

Pais erram. São humanos, imperfeitos. Todos somos. Criar um filho único é muito difícil (e digo de cátedra, pois sou filha única também), a inexperiência leva a muitos erros na criação e na formação. Nem por isso devem ser crucificados, nem por isso se deve deixar de reconhecer que fizeram de TUDO o que puderam para o nosso bem – e fazer de tudo o que está a seu alcance para que outrem seja feliz é AMOR.

Lamento o fato de a senhora ter visto apenas um pai relapso e uma mãe manipulada. Apesar dos defeitos, eu também vi uma família que, apesar de todas as adversidades, permaneceu unida até o fim. Uma família onde existiu amor. Pais que não pouparam esforços manter seu filho vivo. Em tempos de bebês jogados no lixo e crianças arremessadas da janela, não é um exemplo a ser ignorado.

“Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma grande gravadora..
Existem vários talentos que não são revelados por falta de oportunidade ou por não terem algum conhecido importante.”

Óbvio que o fato do Sr. João Araújo ser dono da gravadora influenciou positivamente para que a banda de seu filho despontasse. Porém, o talento de Cazuza não pode ser ignorado. O fato é que João relutou demais em lançar a banda de seu filho (Barão Vermelho) e foi convencido pelo seguinte argumento: se você não lançar essa banda, eles vão arrumar outro contrato e você será eternamente lembrado por ser um homem que não soube reconhecer um grande talento dentro de sua própria casa.

Cazuza teve a sorte de juntar o talento com uma excelente oportunidade de lançar sua carreira. Se considerarmos isso um demérito, tiremos do plantel de grandes artistas, por exemplo, Felix Mendelssohn, que nasceu em uma rica família judaica que custeou uma orquestra inteira para que ele desenvolvesse suas obras (senda a mais famosa dentre elas a “Marcha Nupcial”). Portanto, o demérito é de quem não tem o menor talento e se vale, exclusivamente, do famoso “QI” (“Quem Indica”) para estruturar sua carreira. Nem preciso citar exemplos atuais.

“Cazuza era um traficante, como sua mãe revela no livro, admitiu que ele trouxe drogas da Inglaterra, um verdadeiro criminoso. Concordo com o juiz Siro Darlan quando ele diz que a única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não”

Creio que, mais uma vez, a senhora (bem como o referido juiz) está cometendo um exagero. De forma nenhuma apoio o fato de ele ter trazido drogas da Inglaterra, tampouco o fato de consumir drogas. Mas daí a compará-lo a um criminoso de tal nível soa-me um total disparate. Beira- Mar era o chefe de um cartel, um assassino, esse sim um marginal. Cazuza nunca tirou seu sustento da venda de drogas.

“Fiquei horrorizada com o culto que fizeram a esse rapaz, principalmente por minha filha adolescente ter visto o filme.Precisei conversar muito para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais, beber até cair e outras coisas, fossem certas, já que foi isso que o filme mostrou.”
Discordo plenamente de que o filme seja um culto à personalidade de Cazuza e que ele mostra que as contravenções sociais cometidas são certas. O filme mostra a vida de um artista que pagou pela consequência de seus atos. A película não se furta a mostrar o sofrimento, causado pelo seu estilo de vida. Se essa parte da história fosse omitida, aí seria obrigada a concordar com seu argumento. Mas não é o caso e isso me parece bastante óbvio.

“Por que não são feitos filmes de pessoas realmente importantes que tenham algo de bom para essa juventude já tão transviada? Será que ser correto não dá Ibope, não rende bilheteria? Como ensina o comercial da Fiat, precisamos rever nossos conceitos, só assim teremos um mundo melhor.

A “juventude transviada” de hoje precisa de exemplos que comecem em casa, antes de ver “heróis” no cinema. A “juventude transviada” de hoje vive na sociedade construída por seus pais e outros antepassados: hipócrita, discriminadora, competitiva, com os tais valores de “certo” e “errado” completamente distorcidos por argumentos da falsa moral em que vivemos hoje em dia.

A “juventude” é “tão transviada”, talvez, porque não teve pais presentes, que apoiaram seus sonhos e acreditaram neles. Pais como João e Lucinha, que não pouparam esforços quando seu filho mais precisou que ficassem ao lado dele. Ou, talvez, porque falte gente com a coragem de cantar coisas como “Brasil”, “O tempo não pára”, “Vida fácil” e “Blues da piedade” num país recém saído de uma ditadura (e que ainda não mostrou sua cara).

Talvez falte gente forte o suficiente para sair em uma turnê e gravar um álbum duplo mesmo extremamente debilitado. Gente que, apesar dos defeitos, consegue, com sua obra, tocar geração após geração.

Seres humanos são um todo. Ninguém é composto apenas de defeitos ou qualidades. É uma visão maniqueísta a que a senhora apresenta sobre Cazuza, preferindo exaltar os defeitos a enxergar as qualidades (e, vindo de uma psicóloga, é algo bastante chocante). Não que os defeitos não existam – muito menos que devam ser ignorados – mas não são o único componente de qualquer ser humano, artista ou não.

“ Devo lembrar aos pais que a morte de Cazuza foi consequência da educação errônea a que foi submetido. Será que Cazuza teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissesem NÃO quando necessário?”

Quem pode prever?

Lembrem-se, dizer NÃO é a prova mais difícil de amor.
Não deixem seus filhos à revelia para que não precisem se arrepender mais tarde. A principal função dos pais é educar.. Não se preocupem em ser ‘amigo’ de seus filhos.
Eduque-os e mais tarde eles verão que você foi à pessoa que mais os amou e foi, é, e sempre será, o seu melhor amigo, pois amigo não diz SIM sempre”

Concordo plenamente com suas afirmações. E acho que João e Lucinha estão muito mais próximos de um “modelo ideal” de pais que muita gente que conhecemos. Hoje em dia, dificilmente, pais estão presentes, dizem não e demonstram seu amor da maneira certa. João e Lucinha, pelo menos, foram presentes. E não nos esqueçamos do fato de que pais erram por amor – em todas as gerações.

Qual é o conceito que precisamos rever?

Atenciosamente,

Giovana Vincenzi